A música que vem
da infância


"Eu não diria que o Clube da esquina foi um movimento; nós gravamos um elepê que fez muito sucesso e foi muito importante para a música mineira".

O cantor e compositor Beto Guedes tem uma ligação profunda com a música, e ela vem desde a infância. O seu pai, Godofredo Guedes, entre outras atividades, foi um músico conhecido em Montes Claros, lá chegou a ter um conjunto regional e o filho Beto, com cinco, seis anos, já gostava de assistir aos ensaios. "Meu pai tocava pra caramba", diz Beto Guedes que, aos 12 anos, em 1964 - acompanhando a família - já estava morando em BH. Fez amizade com os irmãos Borges, sobretudo com Lô e, a partir daí, Beto Guedes, que já sabia tocar um pouco de violão, viu a música entrar de maneira definitiva na sua vida. Em seguida vieram outros amigos: Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Milton Nascimento... Em 1971, a convite deste e depois de já haver sido posto à prova em vários festivais, ele participou do hoje já antológico elepê "Clube da Esquina". A partir daí não parou mais. Há seis anos sem gravar, tempo durante o qual se dedicou, sobretudo, a construir um avião - Beto Guedes está novamente na praça, após lançar "Dias de Paz". Em apenas cinco meses o CD, que saiu pela Sony, com uma bonita capa de Marcelo Xavier já lhe rendeu um disco de ouro, o que significa mais de 100 mil cópias vendidas. Dentre os muitos shows que está fazendo pelo País, dia 23 de janeiro/1999 ele estará lançando o CD em São Paulo, no Memorial da América Latina. Casado com Silvana, pai de dois filhos, ele falou ao Fim de Semana entre uma Coca-Cola e outra no Cozinha de Minas.

ESTADO DE MINAS - Aos 12 anos, quando você veio de Montes Claros para Belo Horizonte já foi de maneira definitiva?
BETO GUEDES - Uma de minhas irmãs se mudou para cá logo após o seu casamento e era para a casa dela, que eu vinha nas férias. Devia ter uns nove, dez anos, mas não ficava mais de uma, duas semanas. Mas aconteceu que, daí há algum tempo, os meus pais também resolveram vir para cá e só ficaram em Montes Claros, dos oito irmãos, uma irmã casada e dois irmãos mais velhos.
EM - Os seus pais então resolveram arriscar de novo, já que haviam ido da Bahia para Montes Claros...
BETO - É isto mesmo, eles eram de Riacho de Santana e vieram para Minas em busca de melhores oportunidades. O meu pai, Godofredo Guedes, lá em Montes Claros fez de tudo: foi pintor de placas comerciais, trabalhou em farmácia, restaurou santos, mas tudo isto sem deixar de lado a sua paixão maior, que era a música. Lá, também, ele tocou muito, se apresentou em cabarés, em casas de família, nas ruas, enfim, onde tivesse gente para ouví-lo. Ele tinha um invejável repertório, sobretudo de chorinhos. Também adorava tocar clarinete e chegou a formar um conjunto regional com amigos e alguns parentes. Aos seis anos, eu já gostava de vê-los ensaiar. Quando resolveu vir aqui para Belo Horizonte, continuou fazendo o mesmo que lá em Montes Claros, mas a música de certa forma foi ficando em segundo plano e ele só tocava mesmo em casa, sózinho e depois do trabalho.
EM - E deram certo as coisas por aqui?
BETO - Aqui em BH ele montou uma oficina de biscates e sobreviveu não sei como. Lá em Montes Claros a concorrência era pequena, mas aqui a coisa era diferente. Fomos morar na rua Tupis com São Paulo, em um apartamento. Ele alugou uma garagem alí perto do editïcio Codó, na avenida Amazonas. Era uma muvuca danada e o mais engraçado foi que, no fundo do ponto que ele arranjou, já existia uma oficina onde também se faziam faixas, placas, etc. (risos...). Ou seja, não podia mesmo dar certo. Depois ele foi para a avenida Bernardo Guimarães, mas parece que por lá as coisas também não andaram bem.
EM - E o que você ficava fazendo?
BETO - Eu fui estudar, terminei o quarto ano primário, depois comecei o ginásio, mas ficou por aí mesmo, porque nunca fui muito de estudos. O que sempre gostei mesmo, além da música, foi de fazer trabalhos manuais, sobretudo de carpintaria, que eu também havia aprendido com o velho. Nisso eu sou bom. Quando criança, eu adorava fazer aviõezinhos e os aviões, ainda hoje, são uma de minhas paixões. Tanto que estou construindo um.
EM - Mas antes de falarmos dele, fale mais sobre Montes Claros.Você foi feliz lá?
BETO - Da minha infância em Montes Claros, além de assistir aos ensaios do meu pai e de algumas brincadeiras de rua, me lembro de pouca coisa. Uma delas é que, eu e alguns outros poucos colegas, éramos os únicos que costumávamos ficar na rua até depois das 10 horas da noite. Isto, para as outras crianças, era totalmente proibido, mas meus país não ligavam muito. Além do mais, a gente ficava era na porta de casa brincando e não fazíamos nada de mais. Mas a maioria daqueles amigos de infância, nunca mais eu vi. Apenas com alguns da família Mesquita, ainda costumo me encontrar.
EM - E como aqui em Belo Horizonte você foi dando vazão à sua veia musical?
BETO - Por coincidência, quando nos mudamos aqui para Belo Horizonte, fomos morar a uns 100 metros da casa do Lô (Lô Borges), cuja família morava no Edilïcio Levi. Eu era um menino que ficava muito sozinho, muito assustado aqui na Capital e me lembro que chorava muito. Então conhecer o Lô, o Telo, o Marcinho, enfim, toda a família Borges, foi uma coisa muito boa. Eu era muito tímido, tanto é que, entre os colegas de escola lá em Montes Claros, não consegui fazer amizade com nenhum. E o meu grande medo aqui em BH, quando fui para a escola, era do pessoal pegar no meu pé, me chamar de capiau, estas coisas (rísos...). Foi uma fase muito difícil. Mas a música ajudou muito, éramos fisurados com os Beatles e chegamos até a formar um conjunto, o "The Bevers", com repertório dedicado a eles, logicamente. Participavam o Lô, o Yé (Yé Borges), o Márcio Aquino e eu; tocavámos em festinhas infantís, em alguns programas de rádio, de televisão, mas chegou uma hora em que aquilo começou a atrapalhar o estudo dos meninos, a mãe deles deu uma dura (risos...), e então o conjunto acabou. Depois então, formei outro conjunto, os Brucutus. E com ele nos apresentamos muito, inclusive em Montes Claros, nas férias, onde a gente animava festas para a moçada no Automóvel Clube de lá.
EM - Você se lembra do primeiro cachê?
BETO - Como não... foi quando nos apresentamos com o "The Bevers" na Rádio Inconfidência.
EM - No início de vida aqui em Belo Horizonte você já sabia tocar algum instrumento?
BETO - Já tinha alguma noção de violão, que havia aprendido com o meu pai. Aqui, fui me enturmando de leve com o pessoal do Lô. Eles me chamavam de baiano e foi assim que as coisas foram começando e não paramos mais. Com o tempo, fomos compondo juntos, amadurecendo mais, entrando em festivais, que eram muito comuns na época. Compus com o Márcio Borges "A Quem viveu no Mar", que foi minha primeira canção e com a qual fomos finalistas de um festival. E em 1969, se não me engano, junto com o Lô e também com o Márcio, fiz "Equatorial", que tirou o quinto lugar no Festival Estudantil da Canção e por aí afora.
EM - Foi em 69 também, portanto há 30 anos, quando você já estava então com 17 anos que "Feira Moderna", uma composição sua com Lô e Fernando Brant foi uma das finalistas do FIC- Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro...
BETO - Exatamente. Aquilo para nós foi uma coisa extraordinária, porque ainda éramos muito novos, ficamos na finalista e as portas começaram então a se abrir. Me lembro que o Bituca (Milton Nascimento), nos deu uma força muito grande lá no Rio e nos aconselhou, sabiamente, que deixássemos o Som Imaginário defender a música. Ouvimos a opinião dele e acabou dando certo. Três anos depois, em 1971, ele me convidou também para participar do "Minas", e aquela também foi uma grande chance. Tanto que, em 1973, a Odeon resolveu gravar um elepê no qual estavam juntos, além de mim, o Danilo Caymmi, Novelli e Toninho Horta. Quatro anos depois, em 77, eu gravei o meu primeiro elepê solo "A Página do Relâmpago Elétrico".
EM - Você considera, como muitos insistem em dizer, que o "Clube da Esquina" foi um movimento musical?
BETO - Eu não diria um movimento, com todas as características de um movimento. Gravamos aquele elepê, deu certo e então se criou toda aquela mística a respeito e que foi muito importante, não só para nós, como também para toda a música mineira e brasileira.
EM - Como é o seu relacionamento com a turma antiga, vocês ainda se vêm regularmente, fazem algum trabalho juntos?
BETO - A gente já não se vê tanto, como acontecia antigamente. O Milton mora no Rio; o Lô, em Nova Lima... Mas sempre que rola alguma coisa, que tem algum convite, o pessoal está presente, participa. O Bituca mesmo, está agora participando do "Dias de Paz", assim também como o Lô. A amizade é a mesma, esta não acaba nunca, mesmo a gente se encontrando pouco.
EM - Você ficou um intervalo grande sem gravar. Durante estes seis anos o quê você fez, ficou só cuidando da fabricação do avião?
BETO - Também, também... mas fiz muitos shows, viajei muito: todo o nordeste, São Paulo, o interior de São Paulo e assim por diante. Eu sempre sobrevivi de música, não sei fazer outra coisa, então ela sempre esteve presente, porque é o meu sustento, o meu ganha pão. Mas na época do Collor, por exemplo, o mercado deu uma caída brava, mas agora está melhorando.
EM - Mas e o avião, irá decolar quando?
BETO - (Risos..) Esta já é uma outra história. Eu sempre, desde criança fui fissurado por avião, como lhe disse, e tanto que resolvi fabricar o meu. Toda a estrutura dele, asas, cauda, rodas, etc., já está pronta. O grosso, vamos dizer assim, está ok. Mas ainda faltam alguns detalhes, como o motor, por exemplo, que é muito caro. Porém, estou batalhando, mas o bom seria se pintasse um patrocínio (risos...), aí daria para voar mais depressa. Ele está lá no Carlos Prates e quase todo dia vou lá: vejo uma coisa, outra, devagar ele vai indo, e em breve vamos finalmente decolar fazendo uma viagem até a Bom Jesus da Lapa, na Bahia, onde fui batizado. Essa foi uma idéia da minha mãe e acho que vou cumprí-la.
EM - O quê a sua mulher acha deste avião?
BETO - (Risos...) Em uma determinada época ela começou a reclamar, porque estava demorando demais a ficar pronto e estava tomando muito o meu tempo. Ainda não está pronto, mas agora ela já se acostumou. Neste período eu comprei um ultra leve, tirei o meu brevê e já voei sozinho.
EM - De quê você tem medo Beto?
BETO - (silêncio). Medo, medo mesmo eu não sei. Agora, quando estou dentro de um avião e começa a trovejar, a relampear forte, aí então eu fico com receio (risos...), porque não estou em terra firme.
EM - O quê você acha da explosão de determinados tipos de músicas, como a baiana, por exemplo?
BETO - Em todos os gêneros musicais, inclusive neste, tem gente que sabe fazer bem feito e gente que não sabe. No caso da música baiana, por exemplo, de maneira geral, ela deixa a desejar e o senso do ridículo de quem a consume malucamente, como está acontecendo, eu não sei onde foi parar.

Entrevista do Jornal Estado de Minas,
em 17 de janeiro de 1999
Carlos Herculano Lopes